— «Hoje é o Dia da Criança!», exclamou, cheia de entusiasmo e convicção, uma das destinatárias daquela jornada à chegada do bispo do Algarve. Os restantes elementos do grupo, igualmente entusiasmados, apressaram-se a anunciar que tinham preparado uma canção para apresentar. Da autoria dos próprios pequenos cantores, a composição sublinhava os direitos das crianças, nomeadamente o direito a amar, a ser cuidadas, a aprender e a crescer.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Foi neste contexto que ocorreu, na passada segunda-feira, 01 de junho, a chegada de D. Manuel Quintas ao Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, para visita a convite daquela instituição no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Criança. Acolhido pela sua diretora executiva, Carla Pargana, o bispo diocesano visitou as suas instalações, durante cerca de uma hora, acompanhado também pelo vigário-geral da Diocese do Algarve, o cónego César Chantre (que é também o pároco da paróquia de São Pedro, onde se insere aquela instituição), e cumprimentou os diversos técnicos, voluntários, restantes colaboradores e benfeitores, na presença de autoridades, como o presidente da Câmara de Faro, António Miguel Pina. Mas foi, sobretudo, às crianças que o bispo do Algarve dirigiu a sua atenção.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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D. Manuel Quintas foi conduzido pelas várias unidades e espaços de intervenção terapêutica em áreas como neurodesenvolvimento, psicomotricidade, integração sensorial, hidroterapia, reeducação postural, cinesioterapia respiratória, habilitação social, terapia ocupacional, terapia da fala ou pedopsiquiatria. “O que acontece muitas vezes é que as crianças chegam-nos com uma idade biológica à qual não corresponde o seu estadio de desenvolvimento. Ao termos as terapias na instituição, conseguimos abreviar um bocadinho os tempos de recuperação”, explicou Carla Pargana, acrescentando, não obstante, que “muitas vezes estas crianças não têm qualquer défice cognitivo”. “Têm é falta de estimulação”, observou.

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A título de exemplo, a diretora executiva explicou que aquela Casa de Acolhimento de Emergência de Crianças em Perigo alberga, a pedido do Ministério da Saúde, uma criança em cuidados paliativos, vinda do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, e outra em cuidados continuados, vinda do hospital de Beja. A primeira, com quatro anos, chegou com um quadro de hidrocefalia, tendo vindo de Cabo Verde para Portugal para fazer tratamentos. “É uma situação limite e nós tentamos dar-lhe todo o conforto”, contou aquela responsável.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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D. Manuel Quintas conheceu ainda a mais nova na instituição, uma menina com um mês de vida, que chegou ali há duas semanas, após ter nascido com apenas 34 semanas de gestação. “Acolhemos crianças prematuras, de gravidezes que não são vigiadas, de pais com adições, entre outras situações”, contextualizou Carla Pargana.

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A diretora executiva explicou ainda que o Refúgio Aboim Ascensão não tem muitas saídas de crianças para famílias de acolhimento. “Temos mais para a família biológica ou para adoção. Temos muitas situações de crianças que vão para a família biológica e voltam para cá”, contou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Entre os benfeitores que conheceu e cumprimentou encontrava-se o casal Mark e Kim Robson, ela nora e ele o filho mais novo do falecido treinador de futebol Bobby Robson que começou a apoiar o Refúgio Aboim Ascensão em 2004 com um torneio de golfe. “Este fim de semana vai ser a 21ª edição do torneio Sir Bobby Robson, em que o valor angariado com o jantar de gala reverte a favor do Refúgio”, referiu aquela responsável, explicando que, quando o treinador faleceu em 2009, a família continuou com o torneio de apoio à instituição.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Carla Pargana agradeceu “imensamente” ao bispo do Algarve pela visita e lamentou que a sociedade continue a falhar na proteção das crianças. “Acabamos todos por não defender as nossas crianças como elas merecem. Cada vez que acolhemos uma criança, parece que a sua caraterização é mais penalizadora para ela”, observou, lamentando que, ao choque “momentâneo” da opinião pública com os casos mais mediáticos, se siga o esquecimento. “Mas a criança continua a existir, a precisar de ser protegida e talvez nós adultos não estejamos com a capacidade de proteger”, acrescentou.

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Carla Pargana constatou que hoje a “tipologia de crianças e de família” é “completamente diferente” da que era há 30 anos. “Recuperar estas famílias torna-se um trabalho, cada vez, mais difícil porque não estão abertas a isso. E as crianças, cada vez, vêm com o seu desenvolvimento e o seu futuro mais comprometido”, lamentou.

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O bispo do Algarve agradeceu mais um convite para a visita já ocorrida por diversas vezes. “Foi sempre com grande alegria que aqui vim e saí sempre interpelado”, garantiu, exprimindo a sua “profunda admiração pelo exemplo de humanidade e dedicação” que sempre encontra quando visita a instituição, que disse honrar Faro e todo o Algarve “pela sua missão e pelo modo como a exerce”. “Cuidar de uma criança, é cuidar do futuro. Não apenas do futuro da criança, mas do nosso futuro, daquilo que nos espera amanhã. Cuidar de uma criança é cuidar do futuro da humanidade. Lugares como este, recordam-nos que a solidariedade, quando vivida com autenticidade, transforma vidas e devolve esperança. Por isso, mais uma vez, levo desta visita um sentimento de respeito, de gratidão e de confiança no trabalho notável que aqui é realizado em favor das crianças mais desfavorecidas”, declarou.

Quis ainda “deixar a todos uma palavra de esperança e confiança: que nunca falte a coragem para continuar esta missão de cuidar, de proteger e de amar as crianças que vos são confiadas; que cada gesto de dedicação, cada palavra de conforto e cada sinal de ternura e carinho tornem mais humana a sociedade e até mais próximo o Reino de Deus que Jesus veio anunciar”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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A visita incluiu ainda a assinatura do protocolo de apoio da BP Portugal ao Refúgio Aboim Ascensão. Carla Pargana agradeceu a ajuda em combustível resultante da assinatura “pelo 18.º ano consecutivo” daquele acordo com a empresa do setor da energia e petroquímica que disse permitir à instituição fazer deslocações. “Nós, doze, catorze ou dezasseis vezes por mês temos de fazer deslocações a Lisboa, Beja, Évora ou Setúbal para cumprirmos todo o plano médico das nossas crianças. Portanto, é uma ajuda imensa”, observou.

A presidente da BP Portugal, que também esteve presente, garantiu que o cumprimento daquele acordo “é muito mais que uma tradição”. “É um propósito de vida”, considerou Sílvia Barata. “O trabalho que o Refúgio Aboim Ascensão faz todos os dias é maravilhoso. Dar oportunidade de crianças poderem ter alguma estabilidade, alguma oportunidade de vida, é realmente diferenciador, muito mais no mundo em que vivemos, em que cada vez existe, por parte das empresas e de nós próprios, indivíduos, um maior egoísmo e não vemos as coisas que são mais importantes na vida”, declarou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Após a assinatura do bispo do Algarve do livro de honra da instituição, a visita terminou com atuação do Rancho Folclórico da ARPI – Associação dos Reformados, Pensionistas e Idosos do Concelho de Faro.