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Um coração crente precisa de viver a verdade!

Padre Miguel Neto

A mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano espelha bem a preocupação do atual Papa de se aproximar das pessoas e, simultaneamente, a compreensão que tem da comunicação como fonte primeira de aproximação da e à Humanidade. O coração – símbolo maior do amor – de cada um deve ser o centro da visão que se pretende para a Igreja e, simultaneamente, para a comunicação desta e de todos os crentes. O Papa Francisco coloca-se ao lado dos homens, dentro do que é o centro de cada um de nós e o símbolo maior de uma comunidade geradora de Amor e Comunhão, o coração, que bate ao ritmo da emoção, mas também da razão, que sente, que sofre ao lado dos que vivem nas periferias (quaisquer que elas sejam – afetivas, económicas, etc.) e que se alegra com tudo o que é promotor de bondade, de beleza e, sobretudo, com a vivência e a experiência de pôr em prática as propostas do Evangelho, levando a todos a Palavra. Comunicar é estar onde estão os homens, acompanhando-os na sua existência e trazendo-lhes a alegria e a esperança da Boa Nova; é viver plenamente com eles.

Os cristãos são chamados a estar e viver no seu tempo e, logo, a estar presentes em todos os ambientes que configuram a realidade e, como tal, são chamados a estar, igualmente, na rede – porque também é preciso evangelizá-la -, entrecruzando-se com os outros habitantes desse espaço, conhecendo as suas racionalidades próprias subjacentes, através de uma análise valorativa e critica, para conseguirem alcançar as capacidades e limites aí existentes e, sobretudo, para poderem continuar a fazer presente a mensagem de Cristo. As tecnologias atuais têm um novo paradigma de comunicação. Já não existe uma conceção linear do ato de comunicação e dos seus elementos. Estamos perante um tempo em que a partilha de ideias e de acontecimentos acontece em plataformas multimodais, através das quais a linearidade da comunicação cede o lugar à circularidade e à interatividade comunicativa a vários níveis. Há uma forma de comunicar horizontalmente nos media, onde todos estão ao mesmo nível (quer na comunicação – produção de conteúdos e receção dos mesmos -, quer na experiência de viver os seus efeitos), todos afetam (consciente ou inconscientemente) todos.

Para a Igreja a primeira necessidade à qual é indispensável dar resposta é a de estabelecimento de uma proximidade. Essa proximidade pode e deverá ser criada em todos os ambientes ao dispor das comunidades e dos crentes. Nos atuais ambientes comunicacionais temos a possibilidade de criar espaços de proximidade não só para o “eu”, mas para o “nós”, pois comunicar é partilhar e partilhar é estar perto, é viver o que vive o outro e ser capaz de o dar a conhecer. Criando-se a proximidade há grande probabilidade de se construir comunhão. Estamos teoricamente mais próximos, mas essa proximidade leva-nos, muitas vezes, a viver somente em função dessa comunicação mediada e não da comunicação direta e presencial. Mais: o confronto de ideias pode efetivamente não acontecer neste “admirável mundo novo” e poderemos ficar apenas pela busca daquilo que confirme os nossos próprios pontos de vista. Na mensagem para a celebração do Dia Mundial das Comunicações Socais de 2019, o Papa Francisco diz que: «No cenário atual, salta aos olhos de todos como a comunidade de redes sociais não seja, automaticamente, sinónimo de comunidade. No melhor dos casos, tais comunidades conseguem dar provas de coesão e solidariedade, mas frequentemente permanecem agregados apenas indivíduos que se reconhecem em torno de interesses ou argumentos caraterizados por vínculos frágeis. Além disso, na social web, muitas vezes a identidade funda-se na contraposição ao outro, à pessoa estranha ao grupo: define-se mais a partir daquilo que divide do que daquilo que une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso, e outros). Esta tendência alimenta grupos que excluem a heterogeneidade, alimentam no próprio ambiente digital um individualismo desenfreado, acabando às vezes por fomentar espirais de ódio. E, assim, aquela que deveria ser uma janela aberta para o mundo, torna-se uma vitrine onde se exibe o próprio narcisismo. A rede é uma oportunidade para promover o encontro com os outros, mas pode também agravar o nosso autoisolamento, como uma teia de aranha capaz de capturar. Os adolescentes é que estão mais expostos à ilusão de que a social web possa satisfazê-los completamente a nível relacional, até se chegar ao perigoso fenómeno dos jovens “eremitas sociais”, que correm o risco de se alhear totalmente da sociedade. Esta dinâmica dramática manifesta uma grave rutura no tecido relacional da sociedade, uma laceração que não podemos ignorar».

Por outro lado, a Igreja é a organização que mais fala de Verdade, mas não pode ser vista como aquela onde se pratica menos a verdade. A Igreja não pode ser vista como a organização que esconde a verdade, que a disfarça, a encobre, quando ela é dura e crua para com os seus. Não podemos esquecer que o grande desafio que se colocou desde sempre aos comunicadores – e em particular àqueles que lidam com o tratamento e difusão de conteúdos informativos – prende-se com a veracidade do que transmitem. O Papa Francisco frisa que «a obrigação de preservar a verdade nasce da exigência de não negar a mútua relação de comunhão. Com efeito, a verdade revela-se na comunhão; ao contrário, a mentira é recusa egoísta de reconhecer a própria pertença ao corpo; é recusa de se dar aos outros, perdendo assim o único caminho para se reencontrar a si mesmo».

Para o Papa Francisco e diria para todos nós a Igreja tem de ser vista, não só como difusora de verdade, mas como a comunidade onde há permanentemente verdade, para o bem e para o mal, porque o coração de todos os crentes precisa de viver em/na verdade.

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