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Nossa Senhora é, na minha vida, uma figura importante. Creio que todos os que somos católicos temos, dentro de nós, este sentir especial pela mãe do nosso Salvador, uma mãe que Ele mesmo nos deu também a nós. Não olho para ela com a devoção que roça a superstição que sinto que muitos, ainda que certamente sem uma consciência plena de que o fazem, demonstram, mas olho para ela com o sentimento de um filho que compreende tudo aquilo porque passa uma mãe, porque vejo em todas as mães que conheço o olhar que admiro na Mãe do Céu. Vejo a doçura e a serenidade; vejo a angústia e o medo contido; vejo a esperança e o orgulho puro e sincero que só o amor mais profundo pode inspirar. Até nas mulheres que não podem ser mães, mas cujo coração não deixa de transportar esse sentimento tão especial, eu consigo ver o rosto de Maria.

E neste mês em que todos lhe dedicamos especial atenção, tenho meditado, na minha oração particular, esta relação que temos com as mães e com ela.

Eu próprio, há bem pouco tempo, tive de acompanhar a minha mãe num processo complicado relacionado com a sua saúde. Confiei nos excelentes profissionais que souberam cuidar dela com carinho e com todo o seu conhecimento científico, mas em todas as horas pedi que o olhar da Senhora de Nazaré, exemplo maior de verdadeira cristã, me permitisse a mim, ser o bom filho que desejava e era preciso que fosse. A ela pedi que intercedesse junto de Jesus, fruto do seu ventre, pela saúde da minha própria mãe.

Em Portugal, encontramos em Fátima esse lugar especial de encontro com Maria. Também eu, por diversas razões, ali vou todos os anos. Raramente, muito raramente, em momentos de grandes peregrinações. Nunca me desloquei ali a pé. Mas sempre que lá estou, mesmo que me abrace o silêncio daquele espaço tão imenso, encontro sempre a paz que o meu coração, peregrino nesta terra, procura. Ali sinto-me como na casa da minha mãe. Lá chego e, sem grandes espalhafatos ou complicações, encontro sempre o olhar terno, uma palavra doce para “o meu menino”, um mimo que se sabe que eu gosto particularmente.

Em Fátima, todos sentimos isso, porque em Fátima todos somos filhos e filhas da Mãe do Céu.

E esta vez não foi diferente. Ou melhor: tudo foi diferente, mas tudo foi igual, porque a noite «escura que pesa sobre o mundo», como dizia o Cardeal D. António Marto, não apagou a luz do imenso manto que acendemos por este país fora. Longe fisicamente, mas presentes «com a luz e o calor acesos da fé» que encheu os nossos corações, todos fomos peregrinos uma vez mais, porque, dizia o Papa Francisco, «um filho, uma filha não se pode ver longe da mãe e clama por ela; a confiança que lhe inspira é tal que basta a sua companhia para cessarem todos os medos e inquietações, abandonando-se a um sono tranquilo logo que se vê no regaço dela».

Com responsabilidade, com sentido de cidadania e espírito de nação, todos soubemos que o nosso lugar era ali, mas olhando de longe, porque assim respeitámos e protegemos o próximo, porque assim soubemos ser verdadeiramente Igreja. E soubemos honrar na mãe do Céu todas as mães que por estes dias choram a perda dos seus filhos devido à pandemia. E fomos todos filhos de Maria, verdadeiros e amorosos filhos.

Houve silêncio e tantas vozes… Como dizia a canção popular, que nesse dia ganhou mais sentido para mim: «Às vezes é no meio do silêncio/Que descubro o amor em teu olhar (…) Às vezes é no meio do silêncio/ Que descubro as palavras por dizer» (Maria Guinot).

Houve tanto silêncio e tantas vozes e tudo fez tanto sentido…

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