Primeira encíclica do pontificado denuncia novas formas de escravatura ligadas à economia digital

O Papa apela, sua primeira encíclica, ao desarmamento da Inteligência Artificial (IA) perante uma escalada global de conflitos, rejeitando qualquer teoria de “guerra justa” ou a legitimação do poder face ao direito internacional.

“Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”, adverte Leão XIV, na ‘Magnifica Humanitas’ (A magnífica humanidade), divulgada hoje pelo Vaticano.

O pontífice rejeita a ideia de que “a violência é inevitável e deve apenas ser otimizada”, denunciando a crescente submissão das sociedades a uma “cultura do poder” e os lucros da indústria militar.

“Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje já não é apenas militar, mas económica e cognitiva”, precisa, questionando a “equivalência entre poder técnico e direito de governar”.

O Papa alerta para o perigo de submeter julgamentos com impacto de vida ou morte a sistemas automatizados e impessoais.

“A decisão de recorrer à força letal não pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve permanecer sob um controlo humano efetivo, consciente e responsável”, assinala Leão XIV.

“Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ‘guerra justa’, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito”, acrescenta.

O Papa destaca que a revolução digital está a” modificar a gramática dos conflitos”, na qual a guerra é “acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas”.

Depois de semanas de tensão, marcadas pela guerra no Irão e as críticas da administração dos EUA, o Papa sustenta que “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável”.


Quando nos deparamos com bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou infraestruturas vitais; com atos de violência que atingem crianças, estamos perante escândalos que ferem a própria humanidade. Por isso, não podemos limitar-nos a análises abstratas”.

Contra “uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”, o documento deixa uma mensagem de paz, apelando ao diálogo entre religiões e à rejeição de qualquer ato violento justificado com a própria fé.

“Quem, para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião”, adverte.

A encíclica ‘Magnifica Humanitas’, sobre “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.

Citando o pontífice que o inspirou na escolha do nome, Leão XIV defende que “o anúncio do Evangelho não se pode esquecer da vida concreta dos povos”.

O texto defende a introdução de parâmetros económicos complementares ao Produto Interno Bruto, capazes de medir o bem-estar real das populações.

“O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego”, sustenta Leão XIV.

A encíclica denuncia o trabalho invisível e as novas escravaturas que sustentam a economia digital.

“Nalgumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras. Corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo do cálculo não se interrompa.”, lamenta o pontífice.

Recordando a lentidão histórica da Igreja em condenar a escravatura no passado, Leão XIV assume essa ferida na memória cristã perante as novas formas de exploração: “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.

A encíclica critica também o “colonialismo” digital em curso, que se apropria de dados e transforma as populações em informação vulnerável e explorável.


Territórios inteiros, sobretudo aqueles com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural, estão a ser atravessados por uma nova lógica de extração: a dos fluxos de saúde, dos perfis epidemiológicos, dos mapas genéticos e dos dados demográficos.”

O documento, com 245 pontos e cinco capítulos, convoca a sociedade para uma reflexão ética sobre o futuro, face ao “risco de construir um mundo desumano e mais injusto”, procurando alternativas para “o bem comum e a promoção de uma vida digna para todos”.

“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor”, pede Leão XIV.

Esta é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.

Agência Ecclesia