Leão XIV assume desafios nos campos da educação e da comunicação, perante «reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas»

O Papa adverte, na sua primeira encíclica, para o perigo da manipulação mediática através das plataformas digitais, apelando a uma “ecologia da comunicação” que trave a degradação das democracias.

“As mesmas tecnologias que facilitam a comunicação e o acesso aos recursos podem sustentar modelos que exploram os mais fracos, alimentam novas formas de escravatura e transformam o conflito numa oportunidade de lucro”, escreve Leão XIV na ‘Magnifica Humanitas’ (a humanidade magnífica), publicada hoje pelo Vaticano.

“O desinteresse pela verdade leva, lenta mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo”, pode ler-se.

O documento assume a preocupação da Igreja perante uma opinião pública “progressivamente orientada e condicionada por narrativas mediáticas de polarização, amplificadas com frequência por algoritmos que valorizam o confronto e a oposição”.

“Confiou-se quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade, quando, na realidade, a globalização não gerou automaticamente unidade e paz, mas suscitou reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas”, adverte o Papa.

Leão XIV fala do ciberespaço como “um campo de batalha”, referindo que aqueles que detêm o controlo das plataformas digitais e dos meios de comunicação possuem “uma enorme capacidade de influenciar o imaginário coletivo e de apresentar como desejável uma determinada visão da realidade”.


Na época em que vivemos, vai-se consolidando uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão, relegando o bem comum da humanidade para segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma variável secundária face aos interesses estratégicos.”

O Papa precisa que esta conflitualidade “exacerbada” conduz a guerras assimétricas e “híbridas”, com recurso “à desinformação e a campanhas que alimentam o medo para influenciar a opinião pública”.

“Em países marcados por graves tensões sociais, não podemos excluir a possibilidade de que alguém acabe por considerar o conflito armado como uma forma eficaz de desviar a atenção dos problemas internos e como um instrumento de gestão cínica das dificuldades”, escreve ainda.

A encíclica elenca, em particular, usos “manifestamente anti-humanos”, da IA “como a manipulação da informação ou a violação da privacidade”

“Também pode haver uma ameaça menos evidente, quando os sistemas de IA, apresentando-se como neutros e objetivos, refletem e reforçam estereótipos ou posições ideológicas daqueles que os projetaram e treinaram”, acrescenta o pontífice.

Leão XIV rejeita a ideia de que se possa considerar a IA como “moralmente neutra”, questionando os modelos que a orientam.


Quem dispõe de importantes recursos técnicos e económicos – e, com estes, também de muitos recursos humanos para intervir – tem uma grande capacidade de desencadear mudanças culturais e, em última análise, de convencer um significativo número de pessoas sobre qual é a verdade a respeito do ser humano, do mundo, do sentido da existência, da família e até mesmo de Deus.”

O Papa convida a Igreja a oferecer “critérios de discernimento” – dignidade da pessoa, destino universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da casa comum, paz – em vez de alimentar o medo.

“Os Estados e as instituições supranacionais são chamados a garantir regras justas e tutelas efetivas, para que comunidades locais, organismos intermédios, escolas, universidades, entidades eclesiásticas e associativas possam ter voz e contribuir para o discernimento sobre as escolhas que afetam a vida das pessoas: trabalho, acesso a serviços, gestão de dados e ambientes digitais”, prossegue.

Magnifica Humanitas’, sobre “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.

Esta é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.

A encíclica alerta para novas formas de exclusão e privação de liberdade, apontando o dedo a “algoritmos opacos que reproduzem preconceitos e discriminações”.

O Papa elogia o trabalho de um “jornalismo sério e espaços de debate” onde prevaleçam a argumentação e a averiguação, em vez da “reação impulsiva”.

Neste contexto, Leão XIV reconhece que “alguns jornalistas apaixonados pela verdade desempenharam um papel fundamental em trazer à luz injustiças e abusos”, inclusive dentro da Igreja.

“A escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção”, assinalou.

A reflexão estende-se ao campo da educação, apresentando o “grande desafio da integração dos saberes” e lançando o apelo a “uma aliança educativa para a era digital”.

“O desenvolvimento das tecnologias informáticas e da IA torna rapidamente inadequados os programas de estudos concebidos para uma outra época, enquanto a organização da escola, os espaços, os métodos de avaliação e a própria figura do professor pedem para ser repensados no sentido de uma educação verdadeiramente integral, aberta a todas as dimensões da pessoa”, indica.

O Papa deseja que os jovens não percam o seu “desejo de fazer perguntas” por causa da IA generativa, denunciando os efeitos negativos de “uma exposição precoce e não supervisionada a dispositivos digitais e redes sociais”.

“São oportunas medidas legislativas que estabeleçam limites de idade, responsabilizem os prestadores de serviços – sem delegar nas famílias o ónus da limitação – e prevejam tutelas específicas contra todas as formas de exploração e violência sexual na rede, de modo a proteger”, sustenta o documento.

A encíclica alude a uma “verdadeira higiene da atenção”, no mundo digital, ajudando as novas gerações a “reconhecer” os riscos da utilização das tecnologias.

“A escola não é chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital, mas a oferecer aquilo que o digital, por si só, não consegue: tempo partilhado para aprender e relações de confiança”, assinala Leão XIV.

Agência Ecclesia