Papa defende «critérios sociais para a inovação» que ajudem a preservar empregos e dignidade dos trabalhadores
A primeira encíclica de Leão XIV, publicada hoje, alerta para o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado do trabalho, apelando à proteção de empregos e da dignidade dos trabalhadores.
“Em vários setores, isto traduz-se já em novas formas de precariedade e desigualdade, com remunerações muito elevadas para uma minoria altamente especializada e salários cada vez mais reduzidos para uma grande parte da população ativa”, refere o Papa, no documento intitulado ‘Magnifica Humanitas’ (a magnífica humanidade).
A reflexão sublinha a diferença entre os países pobres e as nações ricas, que se “automatizam rapidamente e de forma caótica, reduzindo a necessidade de mão de obra, criando áreas de desemprego e atritos institucionais”.
“Por outro lado, vastas regiões do mundo permanecem aprisionadas em economias híbridas, onde o trabalho humano mal remunerado e as tecnologias parciais coexistem sem nunca se transformarem verdadeiramente”, acrescenta.
Leão XIV pede “escolhas corajosas” para impedir que a evolução tecnológica gere “mais pobreza e desigualdades, com uma multidão de excluídos rodeados por máquinas e sistemas automatizados que usurparam o seu lugar”.
“A curto prazo, pode parecer vantajoso reduzir os custos laborais ou maximizar a eficiência financeira, mas a longo prazo isso mina as próprias bases da convivência: enquanto se celebram sucessos tecnológicos, a estrutura social é progressivamente afetada como que por um vírus silencioso”, adverte.
A encíclica defende a necessidade de estabelecer “critérios sociais” para a inovação, precisando que “a introdução de automação e IA deve ser acompanhada por escolhas verificáveis em matéria de proteção do emprego, requalificação e participação dos trabalhadores”.
Os desenvolvimentos tecnológicos, observa o pontífice, podem agir como um “acelerador do paradigma tecnocrático” e, por isso, precisam de “um novo enquadramento espiritual, ético e político”.
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Uma sociedade que só garantisse emprego a uma pequena parte da população exporia muitos a uma condição de inatividade forçada, de ausência de responsabilidades, de falta de compromissos e estímulos diários, com consequente empobrecimento humano e cultural.”
O documento papal alerta para o “trabalho invisível, frequentemente explorado, que alimenta os modelos algorítmicos”, falando numa “quarta revolução industrial” representada pela transição digital.
“As novas formas de trabalho não são necessariamente melhores”, adverte o Papa, uma vez que a tecnologia pode desqualificar os trabalhadores, relegá-los para funções marginais e sujeitá-los a vigilância automatizada.
“A inovação é, frequentemente, entendida em função apenas da redução dos custos e do aumento dos lucros”, acrescenta.
Leão XIV propõe sistemas “centrados na pessoa e não apenas no desempenho”, sublinhando que a tecnologia “não deve, de forma alguma, conduzir à desemprego em nome da redução de custos e do aumento dos lucros”.
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Uma ordem social justa na era digital é aquela que garante a todos um acesso equitativo às oportunidades, protege os pequenos e mais frágeis, combate o ódio e a desinformação”.
A reflexão pede convergência dos responsáveis políticos, das organizações de trabalhadores, do mundo do empreendedorismo e da comunidade científica para a criação de “regras e proteções adequadas e partilhadas”, sublinhando que “na era da IA e da robótica, já não é possível confiar apenas na ‘mão invisível’ do mercado”.
“Não basta exaltar a liberdade individual ou a iniciativa privada, se depois se aceita que uma multidão de pessoas continue a viver sem um trabalho digno, sem direitos tutelados, sem acesso aos bens fundamentais”, indica.
O Papa defende que os sistemas fiscais “aliviem o peso imposto sobre os mais fracos, exigindo por outro lado a quem dispõem de maiores recursos”.
“A finança pela finança é muito diferente da finança pelo desenvolvimento e pela criação e evolução do trabalho”, refere ainda.
Leão XIV identifica os migrantes, refugiados e deslocados internos como um “campo de ensaio decisivo” para perceber “se a ideia de justiça é orientada pelo medo ou pela fraternidade”.
“A justiça social exige que se olhe para indivíduos e povos a partir dos mais vulneráveis: pobres, migrantes, refugiados, deslocados internos, vítimas de violência, pessoas que vivem nas periferias urbanas ou existenciais”, precisa.
‘Magnifica Humanitas’ é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.
| A encíclica ‘Magnifica Humanitas’ (Humanidade Magnífica), sobre “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.
O Papa passa em revista a evolução do magistério social desde Leão XIII aos dias de hoje, colocando-se “na continuidade desta tradição”. A inteligência artificial, por isso, deve ser entendida não como um apêndice temático, nem como uma emergência a gerir, mas como uma transformação que interpela, a partir de dentro, as categorias da Doutrina social, exigindo o seu desenvolvimento na fidelidade ao Evangelho.” Após apresentar os “fundamentos e princípios” da Doutrina Social da Igreja, Leão XIV denuncia o surgimento de “novas ideologias ou de determinados interesses muito poderosos no mundo de hoje”. “Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho”, observa. O Papa recusa que o ser humano possa ser visto como “um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar”. Após apelar à defesa do “direito à vida, desde a conceção ao seu fim natural”, Leão XIV reflete ainda sobre a igualdade entre homens e mulheres, pedindo “escolhas concretas, em leis, no acesso ao trabalho, à instrução, às responsabilidades sociais e políticas”. Na linha do pensamento social cristão, o Papa convida a superar as formas de gestão “paternalistas ou assistencialistas” da vida social. “Cabe à comunidade política criar as condições para que as pessoas, as famílias, as associações e os organismos intermédios possam realizar a sua vocação social, sem serem substituídos ou reduzidos a meros executores”, detalha. A encíclica recorda que os avanços científicos e tecnológicos, mesmo no campo da medicina, “não são facilmente acessíveis à grande maioria da população, como se verificou de forma dramática durante a recente pandemia”. “Enquanto nalgumas regiões se investe em projetos supérfluos ou em sonhos de aperfeiçoamento individual que poucas pessoas se podem permitir, noutras partes do mundo ainda faltam equipamentos essenciais para salvar milhões de vidas humanas”, denuncia. |









