O Encontro de Famílias que Diocese do Algarve promoveu no passado dia 16 deste mês, com a participação de 44 pessoas, em Lagoa, no Centro Cultural Convento de São José, contou com o testemunho de dois casais que procuraram partilhar como encontram tempo para Deus.

A primeira partilha foi feita pelo Bruno e pela Teresa, oriundos das paróquias de Tavira, casados quase há 14 anos e pais de duas filhas de três e 11 anos. O casal começou por considerar que “a dualidade entre a aceleração digital e a procura do divino é um dos maiores desafios” da era atual, sentida no seu dia a dia. “A vida acelerada exige resultados imediatos. A vida com Deus exige espera, perseverança e paciência”, comparou, admitindo que no meio da “correria” diária “é muito fácil deixar Deus para segundo plano”.

Bruno e Teresa explicaram então que a solução passa por tentar “que Deus esteja presente nas pequenas coisas”. “Tentamos viver as coisas mais simples do quotidiano, usando sempre Jesus como modelo. Temos que nos perguntar: «O que é que Jesus faria nesta situação?» para tentarmos corrigir as nossas atitudes humanas”, sustentou Teresa.
“Acreditamos que quando colocamos Deus no centro, mesmo que seja em pequenos gestos, a família ganha mais força, mais união e mais paz. Deus entra na nossa vida real, no meio da correria, do cansaço, das imperfeições e até do barulho do mundo moderno. Mas temos que ter o coração bem aberto para o ouvir no silêncio que existe no meio de tantos ruídos”, realçaram.

O casal acrescentou haver dois momentos importantes no dia. “O primeiro é à noite, antes de dormir, mesmo cansados e, às vezes, irritados, rezamos em família e parece que ficamos um pouco melhores. É uma oração simples”, contaram, acrescentando: “O segundo momento acontece quando nos deslocamos para a escola com a Clara. Aproveitamos aquele pequeno tempo juntos para irmos rezando”. “Depois de deixar a Clara na escola, costumamos também aproveitar as novas tecnologias e vamos fazendo a nossa meditação diária”, acrescentaram, explicando que na deslocação entre a escola e o trabalho vão “ouvindo o ‘Passo-a-Rezar’ ou o ‘10 minutos com Jesus’ [App Store e Google Play]”, duas aplicações digitais de oração.
Embora reconhecendo “o benefício da tecnologia, quando bem utilizada”, o casal constatou haver “outro desafio para a família” resultante do “equilíbrio difícil” entre “a vida digital” e a restante dimensão da vida familiar. “O mundo digital prometeu poupar tempo, mas parece que apenas criou mais espaço para preenchermos com as nossas pressas”, afirmou Bruno, criticando a “ilusão da presença”. “Parece que estamos em todo o lado – nas redes sociais, nas reuniões, no WhatsApp, nos blogs – mas raramente estamos aqui. O digital fragmenta a nossa atenção”, lamentou, acrescentando que a família criou a regra de, “pelo menos à hora das refeições”, “não haver telemóvel para ninguém”.

No caso da filha de 11 anos, asseguram mesmo o controlo parental no telemóvel. “As redes sociais estão todas bloqueadas e ela tem um limite diário de utilização do telemóvel. Mas também temos a noção de que não podemos viver apenas na proibição ou numa rigidez extrema porque muitas vezes aquilo que é totalmente proibido é o mais apetecível”, afirmaram, acrescentando que tentam sempre “dialogar e explicar os malefícios de estar sempre online”. “Queremos que ela aprenda a ter sentido crítico, responsabilidade e equilíbrio”, frisaram.
Teresa, enfermeira, sustentou que já este ano, “a Organização Mundial da Saúde integrou na sua classificação internacional de doenças os transtornos de comportamento relacionados com o digital”, lembrando que no comportamento digital aditivo “o vício das redes sociais e dos smartphones cria mesmo critérios químicos de dependência, em que os sintomas são idênticos aos das doenças aditivas em que a pessoa perde o controlo” de si próprio e “negligencia o sono, a higiene, o trabalho, as relações pessoais”.
Neste contexto, Bruno acrescentou a dificuldade em se relacionar com Deus. “Deus encontra-se na brisa leve e suave, no silêncio, na reflexão e na demora”. “Como ouvir essa brisa se os nossos ouvidos estão viciados nas notificações ou no toque do telemóvel, nos likes, nas visualizações, no ruído do vazio exterior e principalmente no ruído interior?”, questionou, acrescentando que “quando o cérebro está viciado ao estímulo constante, a oração ou o tempo com Deus parecem uma perda de tempo, que não serve para nada, sem eficácia, porque o sistema de recompensa está à espera de uma próxima notificação”.
O casal realçou a importância do testemunho dos pais. “Os filhos aprendem mais pelo exemplo do que pelas palavras. Eles reparam se rezamos, se temos paciência, se damos importância à fé, se estamos viciados nas tecnologias e se a tecnologia nos controla ou se somos nós que usamos a tecnologia, se procuramos Deus apenas quando precisamos d’Ele”, referiram.
Teresa disse ainda nunca faltarem à Eucaristia dominical. “Independentemente da correria, das atividades, do cansaço, participar na Missa ao domingo é uma prioridade para nós. É o momento em que reencontramos a paz interior e lembramos o que verdadeiramente é essencial: o encontro pessoal com Jesus”, referiu.
Bruno apontou ainda outro “desafio muito, muito grande”, explicando que passa por encontrar o “equilíbrio saudável entre servir a Igreja, servir a família e estar com a própria família”. “Porque, às vezes, esse equilíbrio desequilibra um pouco”, complementou, acrescentando serem “um casal muito ativo” na paróquia e que “isso também ocupa muito tempo”. “Muitas vezes entre encontros, preparações, atividades e serviço à comunidade, acabamos por ter ainda menos tempo disponível”, contou, evidenciando que a prioridade deve ser a vida familiar. “Depois lembramo-nos que a nossa principal missão é sermos pais, marido e mulher, porque a primeira comunidade que Deus nos confiou foi precisamente a nossa família”, justificou.
Já Lília e Paulo Reis, oriundos das paróquias de Loulé, casados há 22 anos e pais de duas filhas – a Leonor, de 21 anos, e a Rita, de seis anos – observaram a questão que levou àquela reflexão de um ponto de vista ligeiramente diferente, mas que acabou por coincidir na mesma conclusão. “Não é arrumarmos a nossa vida e termos um espaço para Deus. É deixar Deus estar em tudo aquilo que fazemos, mesmo que sejam as pequenas coisas”, afirmaram.

Também Lília e Paulo constaram o “paradigma dos tempos modernos” em “o tempo acelerou e o espaço contraiu”. “Aparentemente estamos próximos de toda a gente que está longe e afastados de quem está ao nosso lado. É uma coisa muito estranha e isso causa-nos uma sensação de vazio. E tantos são os dias em que chegamos ao final e nos confrontamos: «Hoje não tive tempo para Deus». Mas será que é verdade? Será que Deus não esteve lá e, se calhar, nós é que não o reconhecemos?”, questionaram.
O casal advertiu, por isso, que “Deus não está no tempo que sobra”. “Ele está no próprio movimento da vida e parece sussurrar: «Eu estou no que fazes, se me deixares estar»”, considerou, confirmando que as famílias vivem “em grande velocidade sem tempo para preparar nada” e “para perceber que Ele lá está”. “Quando finalmente paramos, percebemos que não foi Deus que esquecemos. Foi a consciência da sua presença que se perdeu no ruído, mas Ele permaneceu fiel, discreto e paciente”, salientaram, acrescentando que “o tempo para Deus não se mede em minutos”, mas “em presença interior”.
“Estarmos despertos para Deus é mais do que guardarmos um momento para Ele. É estarmos despertos para aquilo que Ele nos convoca em todo o momento, seja em que situação for, sentindo a presença d’Ele. É estarmos abertos a que Ele atue em nós. E é talvez aí que Deus se revela… não nas coisas extraordinárias da vida, mas nas coisas ordinárias da vida, nas coisas que fazemos todos os dias e que podem ser para Deus”, desenvolveram.

Lília realçou ainda a importância de ver Deus nas outras pessoas e aprender com elas. “Os nossos filhos também nos ensinam. Ao olhar para eles e vê-los a descobrir o mundo, também vemos Deus. E vemos Deus nos nossos amigos, e até naquelas pessoas de que não gostamos tanto e que nos põem um bocadinho à prova e nos fazem pôr em perspetiva algumas coisas… Deus olha para tudo isto e diz: «Aqui estou eu, no amor que dás sem perceber»”, afirmou.
Relativamente aos filhos, realçaram a importância de perceber “o contexto em que vivem, falar com eles, deixá-los falar, ouvi-los, percebê-los, mais do que impor-lhes regras” e também o valor do “exemplo”. “É aí que falhamos tantas vezes: «Não podes usar o telemóvel», mas o pai está a usar. «Ah, mas é só um e-mail que recebi agora e tenho que responder». Os desafios são muitos e complexos. Não é tanto aquilo que se diz, é aquilo que se faz e o amor com que se entrega”, consideraram, lembrando que na vida familiar “também há muitas tentações”. “Esta fidelidade às pequenas coisas é desafiante”, observaram.
O casal também testemunhou rezar o terço à noite com as filhas e “todos os sábados” no grupo das Equipas de Nossa Senhora, a que pertencem desde 2016. “Quando alguém faz anos da nossa equipa, em vez de irmos para um restaurante jantar fora, reunimo-nos em casa e rezamos o terço”, complementaram, acrescentando também a participação sempre na Eucaristia como algo central na sua vida.
Diocese do Algarve promoveu Encontro de “Famílias que encontram tempo para Deus”










