A recente eleição de D. Vitorino José Pereira Soares para Bispo diocesano do Algarve, tornada pública no passado dia 14 de julho, insere-se num já antigo e muito frutuoso “intercâmbio” episcopal entre as Dioceses do Porto e do Algarve, que me parece oportuno recordar. Para não ir mais atrás, nos primórdios do século vinte, veio pastorear a Diocese do Algarve, o Bispo D. António Barbosa Leão, que antes de ser Bispo de Angola e Congo, de onde aliás chegou ao Algarve em abril de 1908, fora membro do presbitério do Porto, Diocese em que foi ordenado sacerdote. Governou a Diocese do Algarve durante os conturbados tempos da República implantada em 1910, que foram difíceis para a Igreja, a ele se ficando a dever a fundação do jornal Folha do Domingo, juntamente com o então Cónego Marcelino António Maria Franco, que lhe viria a suceder na cátedra episcopal de Faro, quando em 1919, D. António foi nomeado Bispo do Porto. Além de D. António Barbosa Leão e do nosso Bispo eleito serem originários do presbitério do Porto, têm ainda em comum serem ambos naturais da região do “Vale do Sousa”, embora de concelhos diferentes. D. Vitorino nasceu no concelho de Penafiel (freguesia de Luzim) e D. António nasceu no vizinho concelho de Paredes, (freguesia de Parada de Todeia). Mas justamente Paredes, estabelece mais um ponto de contacto entre estes nossos dois Bispos, pois foi em Paredes, nas paróquias de Castelões de Cepeda, desde 1994 e da Madalena, desde 1999, onde D. Vitorino foi Pároco até 2019, tendo ainda sido Vigário forâneo de Paredes e já como Bispo Auxiliar do Porto, teve a missão de acompanhar a Região Pastoral Nascente que grosso modo abrange as Paróquias de Entre Tâmega e Sousa, onde se inserem os concelhos de Paredes e de Penafiel, sendo assim Pároco e Vigário da Vara de Paredes, concelho onde nasceu D. António Barbosa Leão. Mas também o concelho natal de D. Vitorino, Penafiel, se cruza com a história de D. António Barbosa Leão, pois foi num Colégio da cidade de Penafiel que D. António estudou antes de entrar no Seminário Maior do Porto. Dois homens do Vale do Sousa, de Paredes e Penafiel, que em tempos e circunstâncias históricas tão diferentes, com mais de cem anos a separa-los, nos chegaram da Diocese Portucalense, que os formou para o ministério sacerdotal e como generosa dádiva nos ofereceu em 1908 D. António Barbosa Leão e nos oferece agora, em 2026, o Senhor D. Vitorino.
Mas os vínculos do nosso Bispo eleito com os Bispos do Algarve com ligações à Diocese do Porto, não se ficam por aqui e há ainda mais um com um significado muito especial. O Bispo que em 14 de julho de 1985, conferiu a ordenação sacerdotal a D. Vitorino, foi D. Júlio Tavares Rebimbas, que começou a sua carreira episcopal em 1966, como Bispo do Algarve, de quem alguns ainda se recordam, tendo deixado muitas saudades, especialmente entre os jovens, pois no contexto do pós Concílio Vaticano II imprimiu um grande dinamismo à nossa Diocese e ordenou vários dos nossos sacerdotes, dois dos quais foram Vigários Gerais, Monsenhor José Pedro de Jesus Martins e o Cónego Firmino Dinis Ferro. Quem quiser conhecer melhor o que foram esses anos do episcopado farense de D. Júlio poderá ler um livro por ele publicado com o título de “Horas Pastorais: No meio do tempo e do povo do Algarve”. Ora, D. Júlio Tavares Rebimbas, que foi Bispo do Algarve entre 1966 e 1972 e depois de um percurso episcopal singular, que passou por Lisboa como Arcebispo de Mitilene, por Viana do Castelo de que foi o primeiro Bispo em 1977 e terminou no Porto, como Arcebispo- Bispo, onde faleceu em 6 de dezembro de 2010, foi quem ordenou de presbítero o nosso novo Bispo. Essa ordenação sacerdotal de 14 de julho de 1985, foi assim nos desígnios de Deus, e sem que os seus intervenientes pudessem ter consciência disso, pelas mãos de D. Júlio, e parafraseando Fernando Pessoa, em modo de “um plantador de bispo a haver”, pois sem o saber, ao ordenar aquele jovem Padre em 1985, D. Júlio estava a ordenar sacerdote um seu futuro sucessor na sua primeira e sempre saudosa cátedra episcopal algarvia. A D. Júlio, sucedeu como Bispo do Algarve, em 1972, um Bispo que veio diretamente do Porto. D. Florentino de Andrade e Silva, natural de Santa Maria da Feira (freguesia de Mosteiró) no Sul da Diocese, já no Distrito de Aveiro. D. Florentino foi desde 1937 presbítero e desde 1955 bispo auxiliar do Porto, tendo sido entre 1959 e 1969 Administrador Apostólico da Diocese do Porto, durante o longo e doloroso exílio a que foi forçado o grande Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto por antonomásia, aliás também ele um penafidelense como o nosso D. Vitorino. D. Florentino esteve no Algarve entre 1972 e 1977, tendo resignado por razões de saúde. Estes são os bispos que no Algarve recebemos vindos do Porto, como agora o Senhor D. Vitorino, mas do Algarve também foi para o Porto, um sacerdote do nosso presbitério, que começou a sua missão episcopal como Bispo Auxiliar do Porto. Natural de Loulé e formado no nosso Seminário de S. José de Faro, D. António José Cavaco Carrilho, foi eleito bispo titular de Tamalluma em 22 de fevereiro de 1999 e ordenado Bispo em 29 de maio desse ano pelo então Bispo do Algarve D. Manuel Madureira Dias, chegou à Diocese do Porto no dia 3 de junho daquele ano, onde o Bispo do Porto D. Armindo Lopes Coelho o nomeou Vigário Geral e confiou os setores pastorais do Apostolado dos Leigos e da Educação Cristã, áreas em que se especializara durante o seu serviço na Conferência Episcopal, como Diretor do Secretariado Geral e do Secretariado Nacional da Educação Cristã. Em 2007, D. António Carrilho deixou o Porto e dando literal cumprimento ao seu lema episcopal “Faz-te ao Largo”, foi pastorear as ilhas da Madeira e Porto Santo, sendo atualmente Bispo emérito do Funchal. A sua entrada solene na Sé Catedral do Funchal proporcionou um encontro especial entre algarvios e diocesanos do Porto, leigos e clérigos, que esperamos se repita no próximo dia 19 de setembro.
Esta é a breve história das permutas episcopais entre as Dioceses do Porto e do Algarve desde os começos do século vinte até aos nossos dias. Ela permite-nos acolher com gratidão e esperança a escolha do Papa Leão XIV e sonhar que com D. Vitorino poderemos reviver os tempos heroicos de D. António Barbosa Leão, as “Horas Pastorais” de D. Júlio Tavares Rebimbas, e no seu notável dinamismo pastoral que revelou como Pároco em Paredes, encontrar nele um continuador da ação pastoral dos Senhores D. Manuel Neto Quintas e D. Manuel Madureira Dias. O lema episcopal do nosso Bispo eleito “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem”, é fortemente inspirador e auspicioso, pois é o próprio Jesus que nos diz no Evangelho de S. João, “Sem Mim nada podeis fazer” Jo 15,5. Que o Senhor D. Vitorino Soares, traga consigo e realize entre nós aquelas características episcopais que a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen um dia descortinou no grande Bispo do Porto e seu conterrâneo de Penafiel, D. António Ferreira Gomes:
“súbitos clarões de profecia…
fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta”…
Faro, 18 de julho de 2026, Memória de S. Bartolomeu dos Mártires









