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A paróquia de Odiáxere foi no passado dia 18 deste mês confiada aos cuidados dos sacerdotes da Companhia de Jesus (jesuítas), mas a liderança prática da comunidade ficou a cargo de um diácono permanente da Diocese do Algarve, juntamente com a esposa.

Embora já exista há 30 anos uma situação semelhante que foi pioneira no ensaio de alternativas de direção paroquial que não assentes exclusivamente na figura do pároco – concretamente com a missão levada a cabo pelo diácono Albino Martins e pela esposa nas paróquias serranas do nordeste algarvio –, esta é a primeira vez que isso acontece numa parceria estabelecida entre a diocese algarvia e um instituto religioso.

A Diocese do Algarve há muito que entende que o futuro das comunidades paroquiais passa por uma organização que não dependa tanto da presença do sacerdote, podendo ser coordenada com recurso a outros ministérios como o diaconal ou o laical, como comprovam as experiências desenvolvidas em diversas paróquias não só com diáconos permanentes, mas também com leigos mandatados.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“A falta de vocações ao ministério ordenado pode muito bem também ser sinal de que Deus nos está a dizer para servirmos a Igreja de outra maneira e de outro modo, com presbíteros, com diáconos, mas também com leigos”, entende o atual bispo do Algarve, defendendo em declarações ao Folha do Domingo a necessidade de os cristãos se abrirem a “estas formas de serviço na Igreja”.

D. Manuel Quintas diz que este reconhecimento “não devia ser apenas em situações de necessidade”. “Devia ser linha de princípio, até porque, cada vez mais, os nossos padres têm um número crescente de paróquias e não é possível, humanamente e temporalmente, conseguirem acompanhar tal como gostariam e tal como as comunidades precisam as paróquias que estão a seu cargo”, prossegue, evidenciando que o padre deve ser “alguém que faz gerar serviços e ministérios, que acolhe as qualidades e as capacidades dos leigos mais responsáveis e, através deles e com eles, desperta e faz gerar serviços e ministérios nas paróquias que lhe estão confiadas”.

O bispo diocesano lembra que o recurso a leigos “com uma formação adequada, credenciados para servirem a comunidade”, “não como pastores”, mas “como animadores da comunidade” já acontece “em Igrejas mais jovens e com dificuldade da presença de um presbítero”. “É um serviço que anima a comunidade do ponto de vista pastoral, particularmente pelo anúncio da palavra”, sustenta, acrescentando que esses responsáveis devem também ser “coordenadores de outros ministérios ao serviço da comunidade de acordo com as necessidades e com a vida da própria comunidade”.

Essa opção da diocese algarvia de ensaio de uma organização paroquial que não dependa tanto da presença do sacerdote encontrou identificação junto da Companhia de Jesus. Já em 2015, o então provincial padre José Frazão defendia em declarações ao Folha do Domingo que a Igreja devia “ousar explorar outros caminhos”, manifestava o desejo de a Companhia de Jesus “tentar ensaiar outro modo de presença”, ajudando a Igreja diocesana a explorar esses caminhos, e explicava incitar os membros da comunidade jesuíta algarvia a “não desistirem de ensaiar outras formas de presença no mundo diocesano e paroquial, que não estejam simplesmente assentes na presença do pároco”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na solução para a paróquia de Odiáxere foi determinante para a Companhia de Jesus que o diácono diocesano Nuno Francisco assumisse, apoiado pela esposa, a sua liderança prática e que os sacerdotes jesuítas ficassem a prestar apoio na retaguarda. “Esta é para nós uma experiência nova que nos parece corresponder à melhor colaboração que podemos dar à Diocese do Algarve”, explicou ao Folha do Domingo o novo provincial dos jesuítas em Portugal, acrescentando ser “um privilégio encontrar uma comunidade disponível a arriscar a novidade que o Espírito inspira à Igreja”.

“A comunidade de Odiáxere tem a oportunidade de ser percussora num convite a que as comunidades possam viver com mais partilha de responsabilidades e um maior envolvimento de todos”, considera o padre Miguel Almeida, reconhecendo que o “conhecimento mútuo” com o diácono “que cresceu na fé e se formou catequética e pastoralmente” na paróquia da Mexilhoeira Grande – entregue há 40 anos aos cuidados do padre jesuíta Domingos Costa, nomeado agora também pároco-moderador de Odiáxere –, e o “sentido de missão partilhada” que daí resultou, foi determinante para a concretização deste projeto.

Também o bispo do Algarve – que destaca a disponibilidade da Companhia de Jesus para a assumir apesar do “contributo enorme” já dá à diocese e de ter reduzido temporariamente a presença de sacerdotes jesuítas no Algarve – realça que o diácono “conhece e é bem conhecido pela Companhia de Jesus, particularmente pelo padre Domingos Costa”, nomeado para aquela comunidade juntamente com os seus confrades jesuítas, os padres Nuno Tovar de Lemos e Francisco Ferreira de Campos.

Por outro lado, acrescenta D. Manuel Quintas, “a comunidade está preparada para isso, até porque o diácono já é conhecido com a sua esposa Cristina e estão abertos a esta colaboração e participação na animação quotidiana daquela que é a vida” da paróquia.

O responsável católico recorda que os restantes diáconos permanentes “também têm servido a diocese com esta disponibilidade e com esta dimensão”. “Todos eles estão envolvidos na pastoral da Diocese e na pastoral paroquial aos mais diversos níveis. É uma riqueza muito grande e um dom para a diocese termos este grupo de diáconos permanentes envolvidos na pastoral, também com diferentes atribuições e encargos que lhe são dadas pelos párocos ou até pelo próprio bispo diocesano”, refere.

O padre Miguel Almeida também destaca a importância do recurso a leigos, até porque a Companhia de Jesus não tem diáconos permanentes. Aquele responsável refere que a prática informal do instituto tem passado em Portugal precisamente pela responsabilização laical, colocando os leigos à frente de grupos, movimentos e instituições.

Tal como o bispo do Algarve, o padre Miguel Almeida reconhece haver “uma inspiração de comunidades em várias partes do mundo, como por exemplo, na América Latina ou em África em que é mais habitual os leigos assumirem uma posição de relevância na direção dessas comunidades”.

Embora reconheça que “a escassez de clero é um facto indesmentível”, aquele responsável diz que isso não pode levar a “cair na tentação de um olhar desolado sobre a realidade”. “Deve tornar a nossa esperança mais resiliente e criativa. Acreditamos com humildade que esta pode ser uma resposta do Espírito na procura de uma Igreja mais participativa, mais aberta à realidade concreta das pessoas”, sustenta.

Deste modo, o provincial dos jesuítas em Portugal diz que a opção pela responsabilização dos leigos advém “nem tanto pela escassez de clero, mas na tentativa de responder à visão de Igreja que vem do Concílio Vaticano II, que sonha com uma Igreja mais participativa em que os leigos têm um papel ativo e não só de recetores”. “Parece-nos que o tempo presente e futuro nos pede que invistamos na formação e envio de leigos para a missão concreta de liderar apostolicamente as comunidades cristãs. Talvez seja possível no futuro pensarmos de um modo menos territorial e mais pessoal. Aqui lançamos um processo que, acreditamos, tem futuro, pois confiamos totalmente no diácono Nuno. Tentamos caminhar na senda do Papa Francisco que nos convida a considerar como o tempo é superior ao espaço. O tempo permite começar projetos que o Espírito vai conduzindo”, desenvolve.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O diácono Nuno Francisco, de 44 anos, casado e pai de dois filhos, explicou ao Folha do Domingo que a decisão para assumir o trabalho numa paróquia foi sendo tomada em casal “ao longo do percurso de preparação para o diaconado” com vista à ordenação diaconal ocorrida a 16 de junho de 2019. “Fomos conversando algumas vezes com o senhor bispo sobre isso, dizendo-lhe que, se houvesse falta, estaríamos disponíveis. Depois concretizou-se num retiro que fizemos os dois, numa conversa com o padre Domingos”, afirmou aquele professor do primeiro ciclo a exercer na Escola Básica da Pedra Mourinha em Portimão.

“Não fazia sentido dizermos «não». Claro que ficamos sempre espantados e com os medos, mas ao mesmo tempo temos a convicção interior de que ao dizer «não» estaríamos a anular a graça recebida aquando do Sacramento. Se recebemos um sacramento em ordem ao serviço como é que depois, chamados para servir a Igreja, dizíamos que não?”, acrescenta Cristina Francisco, de 42 anos, enfermeira da Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos do ACES (Agrupamento de Centros de Saúde) Barlavento, com sede em Lagoa, reconhecendo e agradecendo a importância do conhecimento e da confiança mútua entre os jesuítas e o casal, construídos durante um tempo que serviu “para se criar relação” e que resultou agora num compromisso.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O diácono garante que a missão na paróquia de Odiáxere vem concretizar a vocação diaconal para a qual se sentiu chamado. “O que eu andava a fazer era quase como se fosse um acólito mais velho. Isto veio pôr no concreto e possibilitar o enriquecimento da nossa vocação diaconal e esperamos que também o enriquecimento desta comunidade”, afirmou.

O casal, natural da comunidade vizinha da Mexilhoeira Grande, considera que este tipo de missão numa paróquia continua a ser reconhecido pelas novas gerações como uma forma válida de servir a Igreja e até como chamamento de Deus. “Acaba por ser um testemunho a toda a juventude, cada vez mais acomodada, com muitos medos, e à conta disso não vai em frente, não se assume em coisas novas. Quando se diz: «não vou para padre porque não posso casar», [é preciso] perceber que na Igreja há outros caminhos, uma diversidade de vocações. Como a messe é muito grande também temos de nos pôr ao serviço e não podemos ficar parados”, testemunha Cristina Francisco acerca do desafio.

“O que mais desejamos é que sejamos uma mais-valia porque também temos consciência que mais do que aquilo que temos para dar, teremos certamente muito mais para receber em crescimento, sabedoria e graça, na esperança de que a Igreja se abra, cada vez mais, a este caminho”, complementa.

“Estamos muito gratos, quer aos jesuítas, quer ao senhor bispo pela sua abertura para que isto se concretize. Por isso, uma palavra também de reconhecimento para a visão que ele está a ter do que pode vir a ser a Igreja no Algarve”, acrescentou o diácono.

O padre Domingos da Costa, que já tinha sido pároco de Odiáxere entre 1981 a 1985, considera que esta opção para a paróquia poderá ser um projeto que venha a ser aplicado noutras paróquias e noutras dioceses e poderá ajudar à valorização do diaconado permanente em Portugal, “até para que os próprios cristãos se apercebam para que servem os diáconos”. “Até agora, a gente vê os diáconos como uma espécie de acólitos ao lado do bispo ou do pároco onde eles vivem. Quando pensei na ordenação dele não foi no sentido de ele ser diácono meu ou da Mexilhoeira Grande porque os diáconos são ordenados para a diocese. Se o Nuno continuasse na paróquia da Mexilhoeira Grande faria o que sempre fez até agora”, refere, garantindo que educou os jovens da sua comunidade, “quando mudassem de terra, se casassem e fossem para fora, para trabalharem lá como trabalhavam na paróquia”.

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